Ecos de amor

Ecos de amor

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Ah, como é incrível abrir este teatro ao público! Ter uma audiência na sua frente e ouvir o som de seus aplausos. Mesmo que a plateia não esteja tão lotada como antes, já é um começo. Há esperança de que as coisas estão voltando à normalidade. Esperando nos bastidores pouco antes das cortinas se abrirem no dia 18 de maio, pude ouvir o público (nossos fãs) vibrando e senti uma imensa gratidão e emoção por estarmos de volta. Foi uma longa espera, mas a recepção foi calorosa e especial.


A abertura de nosso programa "Coreógrafos do Século 21" foi com Within the Golden Hour, um balé de Christopher Wheeldon que muitos já devem ter visto antes. Nós o transmitimos ao vivo há alguns meses, mas nunca conseguimos fazer os espetáculos devido aos teatros serem fechados novamente. Desta vez foi um presente poder fazer todas as apresentações prometidas e não desiludir quem comprou seus bilhetes, mas para mim, a cereja do bolo foi poder dançar Solo Echo, de Crystal Pite, ao lado de um elenco brilhante. Eu não poderia ter pedido por um melhor retorno aos palcos.


Within the Golden Hour © Alastair Muir

Desde que trabalhei com a Crystal há quatro anos atrás em FlightPattern, fiquei totalmente apaixonada por sua visão, sua arte, seu jeito de ser. Só tinha ouvido rumores de uma grande coreógrafa canadense sendo requisitada por muitas companhias de dança internacionais e criando balés extraordinários. Descobri desde então que ela também dirige sua própria companhia em Vancouver - a Kidd Pivot - onde mora com seu marido e filho.


Assim que tive a oportunidade, fui ver sua companhia interpretar o aclamado Betroffenheit aqui em Londres no Sadler's Wells Theatre, onde é Artista Associada, e saí de lá boquiaberta. Seus trabalhos já ganharam muitos prêmios, e pude entender por quê.


Kidd Pivot em Betroffenheit.

Durante toda a minha vida fui um pouco resistente em relação à dança contemporânea.Sempre me vi como uma bailarina clássica;na verdade, acredito que tudo tenha começado quando era jovenzinha e tive que apresentar um número contemporâneo muito difícil (extremamente acima da minha capacidade artística) para uma competição em Oswaldo Cruz, um balé criado para mim por uma renomada dançarina e coreógrafa brasileira - IvoniceSatie - a quem eu queria muito impressionar.


O processo quase me traumatizou. Queria provar ser digna de seu tempo, mas me senti extremamente despreparada para o que estava por vir, me jogando no chão com bastante força e não sabendo como me movimentar daquela maneira. Nunca pensei que houvesse uma técnica certa para esse tipo de dança, que esta exigisse tanto controle e consciência corporal quanto o balé clássico. Era cem vezes mais difícil do que havia previsto, e passei a dizer:


'Contemporâneo não é o meu estilo.'


Aos 13 anos dançando Raio de Luz, de Ivonice Satie.

Daquele momento em diante, decidi que meu negócio era balé clássico. Queria dançar os balés clássicos tradicionais como Gisele e A Bela Adormecida, e foi por isso que sempre desejei vir trabalhar no Royal Ballet. Mas assim que cheguei aqui, percebi que a companhia fazia de tudo e mais um pouco, muito mais do que somente os clássicos. Eram bailarinos versáteis, então eu tinha que ser também! De repente, pensei comigo mesma... se essas lindas bailarinas clássicas podem se mover assim, eu também posso!


Para minha surpresa, fui escolhida por alguns coreógrafos convidados que vieram ao teatro criar trabalhos modernos, e senti cada vez menos medo de me entregar à um novo estilo. Foi como se a vida me desse uma nova chance. No começo, foi bem desconfortável; sentia-me como um peixe fora d'água, mas minha confiança foi crescendo e minha mentalidade mudando. Um momento decisivo foi trabalhar com Hofesh Shechter, um coreógrafo Israelita, que fez sua estreia no Royal Ballet em 2015 com o balé Untouchables.


Untouchables no Royal Opera House

Todos temos a capacidade inata de nos mover, sentir, e de nos expressarmos de maneiras que nem mesmo compreendemos. Alguns movimentos podem não nos ocorrer naturalmente por causa do nosso treino, ou por nossos preconceitos e imagens que criamos de nós mesmos, mas quando colocados em um ambiente seguro e confortável, descobrimos uma força e habilidade que nem imaginávamos existir. Ir além de nossa zona de conforto é quando podemos realmente nos desenvolver artística e espiritualmente, eu acredito. É assim que me sinto ao trabalhar com Crystal e sua equipe.


Vocês são dançarinos, todos vocês. A vida te move; a vida te dança. Dançar é investigar e celebrar a experiência de estar vivo. Como a vida, uma dança se cria e se autodestrói a cada momento. Como o amor, vai alem da razão. - Crystal Pite

Ensaiando Solo Echo © Andrej Uspenski

Os últimos dois meses foram de preparação cuidadosa, workshops, aulas contemporâneas, ensaios, e vídeo-chamadas por Zoom. Isso chegou num momento ideal, quando ainda não havíamos mergulhado em nosso ritmo louco de temporada, nem em nosso repertório clássico. Assim como em Flight Pattern, nosso processo de ensaio foi intenso, eu diria ainda mais desafiador porque os dois balés que Crystal escolheu remontar, Solo Echo e The Statement, não foram feitos para essa companhia. Ambos foram criados para bailarinos do Nederlands Dans Theatre, em 2012 e 2016 respectivamente. Assistindo-os em vídeo, pensava... como vamos fazer isso?? Eles se moviam com uma qualidade diferente, havia um equilíbrio exato entre esforço, resistência, fluidez (veja trechos no vídeo que postei ao final). Tínhamos um longo caminho a percorrer!


A única maneira de conseguirmos essa transformação era mergulhando de cabeça no processo, fazendo aulas de improviso, aprendendo as frases e repetindo-as várias vezes ate que estas se tornassem mais naturais. Fomos orientados a isolar cada parte do corpo, originando movimentos com a cabeça, tórax ou quadris; falamos dos diferentes níveis de complexidade, escala, e trajetórias de movimentos. Qual seria a intenção por trás deles?Qual o seu destino final?


Aprendemos uma rotina de aquecimento onde começávamos sentindo a pressão de nossos pés no chão, deslizando nossas pernas com resistência em todas as direções como se pesassem 100 kg cada uma para que pudéssemos nos sentir ‘ancorados’. Também trabalhamos em contrabalançar, correr, deslizar ao chão (e não desabar, como eu fazia quando menina) e, o mais importante, focar no que está acontecendo ao nosso redor, sentindo a presença de todos e quase antecipando os movimentos um do outro.


© Andrej Uspenski

O esforço coletivo é um tema recorrente nas obras da Crystal. Em Flight Pattern, trinta e seis bailarinos retratam uma comunidade de refugiados. Esse trabalho em conjunto também é parte integrante de Solo Echo mas executado em uma escala bem menor. São apenas sete bailarinos, cada um representando características e qualidades de uma única entidade, um personagem reconciliando-se com sua própria natureza.


No primeiro movimento da sonata de Brahms, esse personagem é jovem e ambicioso. Há um conflito interno, paixão, raiva, luta, poder, sentimentos que ecoam através dos sete expressados em duetos e solos, como se representássemos diferentes dimensões do que é ser humano. O segundo movimento torna-se mais nostálgico e reflexivo, como o fim de uma vida, e é quando realmente nos tornamos um.


Solo Echo parte I
Parte II © Andrej Uspenski

Sempre gostei de sentir essa conexão com meus colegas e com coreógrafos, de sentir como se fossemos um só corpo. Isso ressoa com a vida, nos aproxima e nos faz estar no mesmo nível de consciência, trabalhando por um mesmo objetivo. Afinal, não é tão diferente dos números de um grande corpo de baile como O Lago dos Cisnes ou La Bayadere, que têm tudo a ver com esforço em equipe e consciência mútua. São habilidades que qualquer bailarino deve aspirar a ter. Alcançar algo por conta própria é incrível, mas sentir que conquistou algo coletivamente e compartilhar essa emoção é ainda melhor.


O Lago dos Cisnes
La Bayadere
Royal Ballet em Flight Pattern.

Tendo líderes que te inspiram a ser uma pessoa melhor, a respeitar uns aos outros e trabalhar em equipe, tornando o processo uma viagem coletiva de exploração ... isso traz um novo significado para o espetáculo. É isso que tenho a sorte de ter experimentado aqui com o Royal Ballet. Que honra ter feito parte disso e poder sentir que tínhamos um único propósito: nos desenvolvermos artisticamente e nos conectarmos com aqueles que nos rodeiam, bailarinos e público, em um nível significativo. Foi uma grande experiência de vida pela qual sou muito grata.



Por causa da pandemia, Crystal não pode estar conosco pessoalmente. Enquanto estava ‘presa’ em Vancouver, seus assistentes Eric e Spencer estiveram nos ensinando as coreografias, ensaiando incessantemente, e nos guiando passo a passo. Eles foram tão pacientes, cuidadosos e inspiradores, nos dando seu tempo e esforço como se significássemos o mundo para eles.


Nas últimas semanas, Crystal assistiu por vídeo-chamada aos ensaios finais no estúdio e no palco, nos dando feedback com suas palavras sábias, nunca parecendo frustrada com a situação, sempre positiva e amorosa, o que apenas resume como eu a vejo como pessoa.



Ela nos escreveu um bilhete incrível para a noite de abertura. Tomei a liberdade de compartilhar algumas linhas aqui, e que esse sentimento se ecoe pelo resto de nossas temporadas.

"Meu desejo sincero é que você tenha uma boa aventura lá fora no palco - que você confie em si mesmo para dançar beirando o seu limite. Que você se sinta belamente e comoventemente humano em seu esforço e vulnerabilidade. Que sua dança seja uma manifestação de amor por uns aos outros e pela própria vida."


Antes da nossa ultima apresentação.

A apresentação do Royal Ballet '21st-Century Choreographers' estará disponível online até o dia 27 de junho: https://www.roh.org.uk/tickets-and-events


Insight Evening de Solo Echo com Eric Beauchesne, disponivel no site do YouTube do Royal Opera House. (bailarinos: Francesca Hayward, Cesar Corrales, Isabella Gasparini)


Crystal fala sobre o processo criativo de Solo Echo. Trechos do NDT aparecem em 8:20''


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